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29 de março de 2010

NÃO ÀS MINAS ANTI-PESSOAIS

Contra as minas ati-pessoais, o soldado que continua a matar mesmo depois da guerra acabar...

NO LANDMINES, PLEASE!

fotos da autoria do fotógrafo angolano, Tonspi - José Silva Pinto, as fotos retratam vítimas da guerra civil angolana




LAVRA DE MORTE

Lá em baixo
na margem do Cubango
p’rós lados do Cuangar
Karungu João
foi na lavra.
Filho na cacunda
quinda na cabeça
foi na lavra
Karungu João
no Cuando-Cubango
p’rós lados do Cuangar
Karungu João
foi na lavra
procurar mandioca
filho na cacunda
quinda na cabeça
que fome é bicho
roendo, mordendo...
foi na lavra
Karungu João
só encontrou mina
debaixo do pé
as pernas perdeu
e o filho morreu
pequeno, pequenino
na cacunda
de Karungu João
Aiuê, Suku ianguê!

Namibiano Ferreira





2 de fevereiro de 2010

HAIKAIS DO TEMPO DA GUERRA





São estes haikais, ou tentativa deles, feitos no tempo da guerra. Daquela guerra... quando nada mais sabíamos fazer a não ser matarmo-nos uns aos outros num fraternal abraço guerreiro. Uns porque defendiam capitalismos, outros, diziam-se do ideário socialista ou social-democracia e os nossos, os que construiram a República Popular, acérrimos defensores do marxismo-leninismo, tudo pelo povo, nada contra o povo....
Creio que, com o passar do tempo de guerra, esqueceram-se dos brados de luta ...é o povo ...é o povo.
A guerra acabou, enterrámos as divergências, constrói-se o país novo e todos TODOS, hoje, somos CAPITALISTAS, engordando. E o povo? O povo, esquecido que se lixe... pobre, roto, esfomeado alastrando musseques...
Mas tenho estes haikais do tempo da guerra (ou tentativa de haikais), nada mais do que ais – aiuês do povo – no choro da terra que os políticos não ouviram nos tempos da guerra, porque do barulho dos obuses e continuam sem ouvir agora, porque se fingem de SURDOS... talvez consequências nefastas do barulho (antigo) dos obuses.
E os Deuses? Não ouviram também e não querem ouvir. Dormem! Dormem há muito, porque cansados de aturar o Homem.






OS HAIKAIS (DO TEMPO DA GUERRA)


1
Um vasto pasto.
Arreganhando dentes
Hiena também ri.


2
Chegam kissondes.
A caminho da lavra
Perna perdeu pé.


3
Cantos tonantes.
O caminho vedado
Não impede kissonde.


4
Chão de riquezas...
Minha gente da terra
Fome e pobrezas.


5
Cantam cigarras.
Escondida na lavra
Morte rasteja.


6
Chuva dorida.
No ombro da estrada
Cruzes silentes.


Namibiano Ferreira


Kissonde/quissonde – formiga carnívora.


1 de dezembro de 2009

TÚJI


Um poema quando a guerra era o pão nosso quotidiano da nossa terra e povo sofria ao sol de todos os dias...


Setenta vezes sete: Túji!
em consonâncias lamacentas
pantanosas purulentas
atiradas à face dos homens
sentados às mesas da exploração.


Setenta vezes sete: Túji!
túji túji túji...
e eles lá no Norte, capitalistas ou não,
alimentam-se da nossa guerra
engordando com nossas desgraças...

Namibiano Ferreira
 
NOTA: Quem nao sabe vai querer saber o que é túji, não é verdade? Pois bem trata-se de uma palavra com grande sentido escatológico, isto é, mais direccionado para a coprologia.
Em vernáculo da língua portuguesa é, merda, simplesmante.

11 de novembro de 2009

PARA NUNCA MAIS A GUERRA

Este poema andava perdido entre os papéis e velhos textos. Devia ter sido o primeiro poema a publicar neste blogue, porque foi ele a razão do seu apareceimento. Mas nunca é tarde e neste dia de celebração (Dia da Independência) não fica mesmo nada mal lembrar, novamente e sempre-sempre: PARA NUNCA MAIS A GUERRA!


Meninos de Tombwa




Viajando pelo vento dos tamarindeiros
procuro o secreto caminho
que há-de conduzir nossos passos
trôpegos e cansados
à glória de um Futuro brilhante.




Mas, ainda à sola dos nossos pés,
sujos e gretados
gruda-se o lodo informe dos mortos,
um lodo fétido gruda-se
também às nossas almas
rotas e cansadas.
Inda se ouvem os gritos
dos meninos amputados
das mulheres desventradas
e o lodo traz os tanques fantasmas,
cicatrizes disformes,
abandonados e queimados.
Caminhamos... devagar ainda
e os cemitérios de guerra
florescendo no altar dos nossos olhos
bordados de cruzes
no calcanhar triste da picada.
Vamos, irmão, esquecer o passado triste
mas num grito que não se cale nunca
para não fazer esquecer:


PARA NUNCA MAIS A GUERRA!


 
Namibiano Ferreira

22 de janeiro de 2008

CANTIGA DE PAZ

Ai flores, ai flores da buganvília

caídas p’la varanda debruçada sobre a rua

trazei-me novas do meu país!

Ai flores, ai flores da buganvília

roxas quimeras de desejos coalhados

trazei-me novas do meu país!

Ai flores, ai flores da buganvília

roxas, brancas, azuis, tanto faz

trazei em breve a paz que falta ao meu país.

Um poema escrito ha muitos anos... ainda no tempo em que a guerra matava e amputava os bracos e as pernas do povo angolano!!!

Namibiano Ferreira

8 de outubro de 2007

CICATRIZES DE GUERRA


Abandonados por todo o lado, nos beirais dos caminhos


soprados de verde-chuva sobre o vermelho das picadas,


jazem as cicatrizes latejando ainda memorias


talhadas no zunir dos ferros, engrenagens e murteiros...


a alma, assustada, esquece os gritos dos meninos, os clamores


perdidos, oracoes das mulheres, de seios mirrados


amamentando filhos ja mortos no futuro estupido


raiando sangue no quotidiano dos dias palidos


de Novembro florindo acacias-rubras sobre o chao


informe onde jazem mortos os filhos de mukayas tambem


elas ja mortas, apodrecidas... cicatrizes.





Namibiano Ferreira

14 de maio de 2007

MONANGOLA







Uma brisa dormente
assalta as consciências humanas
um menino grita
dilacerando a madrugada de mísseis e obuses:
- Tata morreu na guerra
- Aiuê tatauê!
- A fome comeu mamã
- Aiuê mamauê!
- Aiuêeee! Suku, meu Deus, Nzambi...


E a guerra
é só uma guerra
uma guerrinha só
matando, secando a Lavra.
Da guerra
colhemos guerra
a guerra tudo nos tira.
E a guerra
é só uma guerra
duma vontade só
parindo ngongo e sangue
e o País - obsidiado
e Monangola - exangue
ficam sem espera e destino
à beira do pó dos caminhos.


E mesmo no meio da guerra, foi então que se viu
o que não se vira antes:
Camaleões com asas vieram
lá do beco fundo da morte
e sobre o teu corpo negrinho
- inchado de vácuos de fome -
vieram pairando e sugando
com dentes afiados e garras-guerras
retorcidas.






Tata - pai


Suku - Deus (centro e sul de Angola)


Nzambi - Deus (norte de Angola)


Ngongo - Sofrimento


Monangola - Filho/crianca de Angola (mona + Angola)
NAMIBIANO FERREIRA

16 de abril de 2007

PRENÚNCIOS DE GUERRA

Se Catedral do Kuito/Bie













Igreja no Huambo











Longe de mim
longe-longe
Na lonjura de Longondjo
Adivinhou-se o Futuro.

E ninguém, absolutamente Ninguém,
ACREDITOU...

E no entanto,o Padre do Longondjo,
Ainda grita:
Etxi ndavanguíle txeyá-pô!
(O que eu disse tornou-se realidade!)

NAMIBIANO FERREIRA



3 de abril de 2007

AINDA A GUERRA NAS MINHAS MÃOS




(Origem nao identificada - parece tratar-se da Serra Leoa - mas infelizmente tambem se aplica a Angola. Esta imagem dramatica gerou este poema.)
Autor da foto: desconhecido



Construimos a Paz subindo degrau a degrau a construção. E o homem vive ainda a guerra na encruzilhada perene dos dias que lhe faltam para que lhe cantem komba. Acabou a guerra e no entanto, ainda a guerra nestas minhas mãos que não vejo, nestas minhas mãos perdidas em vão numa guerra que nada vos custou, a vós, a não ser as minhas mãos irremediavelmente perdidas e, o prémio ganho, a dependência às mãos e à vontade alheia.

Komba - cerimonias funebres.
NAMIBIANO FERREIRA

7 de novembro de 2006

NA PONTA DO PINDA EM 76





Ponta do Pinda (Tonbwa - Angola)






Em setenta e seis
da Ponta do Pinda
atiraram homens ao mar.
Ninguém viu...
e os deuses, viram?


Em setenta e seis
atiraram da falésia abaixo
os homens para o mar.
Eram seis horas da tarde
se a hora for importante...


Em setenta e seis
os karkamanos
atiraram homens atados
de mãos e pés
da Ponta do Pinda abaixo
para o mar.


Pergumtem às ondas da falésia
onde o mar bate no grés
é lá que existem cazumbis
procurando ainda em vão
se libertarem das amarras
no fundo da falésia
da Ponta do Pinda








Namibiano Ferreira

31 de outubro de 2006

...E SEMPRE A GUERRA + A SECA = A FOME



Espinheiras
secas em pó
e deserto
rodeiam ongandas-cazumbis
abandonadas aos ventos da secura e da guerra.
Esqueletos de vacas
-outrora gordas e ubérrimas-
jazem brancos na aridez
implacável do Deserto.


As ongandas vazias, abandonadas;
os sambos mortos, fantasmas;
as manadas diluídas no pó dos caminhos;
Muílas Mukubais Kurokas
perdidos chorando
nos subúrbios esfomeados das cidades


_ A guerra: grande imenso deserto!
_ A seca: grande Omakisi assassino!


E de longe dizem:
_ Acabou a guerra!
_ Acabou?!...

(Duvida quem sofre: o POVO.)

(Janeiro 1998)
NAMIBIANO FERREIRA